Como Joel Goldsmith orava?

PERGUNTA: “Fui criada como católica. Agora sei que existe uma presença: sinto que uma quietude está aqui, a Consciência está aqui. Mas eu tenho o pensamento “por que devo orar?

Pois, se Deus é onisciente, onipotente, todo-amoroso, e assim por diante, não acho que Ele/Ela precisa de mim para dizer: “psiu, ei! Meu amigo está morrendo de câncer, você pode ajudá-lo?”. Não acho que seja necessário, mas eu gosto de rezar. O que seria adequado para orar? Você acredita na oração?”

ECKHART TOLLE: Talvez você possa aprimorar as suas orações de súplicas (“por favor me conceda isto ou aquilo”) para transformá-las em “pequenos indicativos mentais”, visando a paz, por exemplo. Esses pequenos indicativos mentais (oração que lhe estou sugerindo) ainda se valem dos conceitos, porque, em geral, uma oração consiste de palavras e conceitos – para apontar, indicar, e assim ajudá-lo a ir além dos conceitos. Você poderia fazer, por exemplo, uma afirmação – como fez Jesus, quando disse: “eu sou a luz do mundo”. É uma afirmação; é um conceito que aponta para uma realidade muito mais profunda que a das palavras. Se você ainda quiser pedir algo, então você poderia dizer algo como: “por favor, seja-me revelado que eu sou a luz do mundo”.

Usualmente, as orações comuns implicam em dualidade. Elas sugerem um Deus que está lá, ao passo que aqui estou eu, rogando a Deus. Tal dualidade é, em última análise, uma ilusão, porque a verdade é que você é uma expressão de Deus, do próprio Deus. Deus e você se fundem, vocês estão misturados. Assim, as orações de súplicas, que sugerem dualidade, não são as formas mais profundas de orar. Enquanto você gostar de rezar assim, está ok. Mas, gradualmente, comece a cessar de pedir a alguém para que faça algo para você, porque isso a mantém presa na dualidade. A oração mais verdadeira acontece quando você adota a atitude de ouvir, em quietude, ao invés de proferir palavras.

Afirmações assertivas, se feitas corretamente, podem atuar como belos substitutos para as orações que comportam dualidade. Afirme: “Eu estou curado e completamente em paz”. Após isso, deixe haver espaço, permita que o espaço entre e atue. Apenas o “campo” sem forma do puro espaço. E descanse nesse estado. Realmente, a inteligência e o poder residem nesse espaço. Nesse estado de espaciosidade, a sua experiência é a de que você já é o Todo – inteiro, pleno, completo.(…)

Você pode curar uma pessoa – quer a pessoa doente esteja ao seu lado, quer ela esteja distante e lhe venha à mente. A mais poderosa maneira de curar, no meu entender, é manter consigo a imagem da pessoa e mover-se profundamente para dentro de si, onde se encontra a Totalidade da Vida. Seguindo esse método, você parte da forma e se move para a dimensão da não-forma, onde absolutamente nada é necessário, onde nada pode ser acrescentado. Nesse lugar profundo onde está a Totalidade da Vida, você contata também a totalidade daquela pessoa – ela já está curada/inteira nesse nível mais profundo, além da forma.

Essa é a cura que era praticada por JOEL GOLDSMITH. Ele tem um livro fascinante chamado “A Arte da Cura Espiritual”. Realmente, trata-se de não se ater por completo às condições (do mundo da forma) que precisam ser melhoradas, mas concentrar-se na realidade essencial de que o ser humano é um com a própria Realidade Essencial, e entrar na profunda quietude onde nada é necessário. Goldsmith costumava receber telefonemas, às vezes no meio da noite. Eram de pessoas que necessitavam desesperadamente de uma cura; elas, então, diziam a ele os seus nomes e do que estavam sofrendo. Imediatamente, em seguida, ele largava do telefone e adentrava num estado absoluto de não-pensamento. Por um momento, ele ouvia o nome da pessoa, ele ouvia o que estava errado com elas, e imediatamente deixava inteiramente de lado tais informações/pensamentos. Ele, então, por dois ou três minutos, entrava em um estado de não-pensamento – um estado de absoluta presença. Existe uma perfeição absoluta no reino da não-forma. E essa perfeição absoluta é a essência da pessoa que, no nível da forma, necessita da cura. Então, você conduz a forma para a dimensão da ausência de formas, um espaço onde as formas não são. Nenhuma condição há para ser tratada, nada jamais é necessário – apenas vá para dentro desse espaço.

Esse era o seu modo de curar as pessoas. Ele foi um curador bastante poderoso. Essa é a última e mais elevada forma de cura, e que é realmente o tipo não-dual de oração. Nela, você vai além da oração do tipo “por favor, Deus, cure o fulano!”. Você penetra e contata a própria Fonte, que é inseparável de quem você é, e que é inseparável de quem é essa pessoa.

A oração pode converter-se gradualmente em uma atitude de escuta. Qual é o significado de “ouvir”? Ouvir significa que há um campo nú, “vazio”, de pura atenção, o qual é percebido quando despido das projeções dos pensamentos. Nesse campo, você percebe a inocência, a pureza, a simplicidade e inculpabilidade de todas as coisas. Permanecer nesse campo é o que significa a atitude de escuta. Não significa que você esteja esperando por alguma resposta, porque então você não estará realmente ouvindo. Na escuta você absolutamente não espera por nada – há apenas um campo de atenção pura. Essa é uma oração muito mais profunda do que com qualquer palavra proferida. Não há sequer o desejo de que a oração seja atendida, ou obter uma resposta. Estar em silêncio é o bastante. Quando está escutando, você não está esperando por nada – há somente um campo de pura atenção.

Essa é uma forma de oração muito mais profunda e muito mais verdadeira do que qualquer palavra é capaz. A verdadeira oração acontece naquele ponto onde a própria oração também se converte em meditação: ela é ambas. Ela não espera por respostas, estar em profundo silêncio é um estado de graça, e isso é o bastante. Algumas vezes a resposta surge; algumas vezes, também, de repente, as coisas apresentam-se solucionadas. Ouça isto: quando surgir qualquer problema pertencente a este mundo, qualquer distúrbio – e eles acontecem o tempo todo envolvendo: pessoas ao seu redor, perturbações na mente, etc. -, apenas vá para o estado de “escuta”, de pura atenção, de pura consciência, no qual você se torna ciente da presença. O ato de escutar a presença é uma maneira poderosa de falar sobre ela e transmiti-la.

Quando você está presente, é como se você estivesse em um estado de escuta. É importante dizer, contudo, que o termo “escuta” tem sido usualmente associado com o sentido físico da audição. Mas, aqui, o termo “escuta” refere-se a um estado que se encontra além dos sentidos que percebem os fenômenos físicos; é um estado de consciência que sublinha, subjaz e que dá a base à existência do próprio sentido da percepção sensorial auditiva. Todo mundo sabe como é esse estado, porque quando você está realmente ouvindo um som fraco, o que é o estado de consciência que está por trás e que escuta aquele som fraco? É um estado de alerta absoluto e descontraído, relaxado. Assim, quando dizemos escuta, isso é algo útil, pois todo mundo sabe o que significa escutar. Eu estou apenas apontando para o fato de que a percepção sensorial externa não é a essência do escutar, o verdadeiro escutar; a essência da escuta é o estado subjacente da consciência, de receptividade absoluta e presença de alerta, que está por detrás da percepção sensorial auditiva.

É por isso, acredito, que uma das parábolas de Jesus falava sobre um servo que tinha o dever de ficar acordado, em estado de alerta, porque o servo não tem o conhecimento de quando o dono vai voltar para casa. Eu acredito que, ao mencionar o servo que esperava pelo mestre, Jesus estava falando sobre uma atitude diferente – um estado de consciência. O servo está esperando em um sentido diferente da coisa normal que chamamos de “espera”, que nada mais é do que a mente dizendo “Quando irá acontecer? Por que ainda não ocorreu?”. Mas o sentido utilizado aqui por Jesus não é esse, é completamente diferente.

Muitas e muitas vezes Jesus fala a respeito da espera, da importância de ficar acordado, alerta. Essa é uma parte muito importante de seu ensino: ficar acordado, não ir dormir, permanecer presente. Assim, todas as palavras que você usar na oração, lembre-se de fazê-lo como ponteiros ou indicadores para isso.

Então você poderá dizer verdadeiramente: “Eu estou ouvindo”.



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1 resposta

  1. Avatar de arquitetadaoracao

    Perfeito como tudo q vem do perfeito! Não há palavras para expressar a imensidade da verdadeira oração. Na ascultação o todo se fez. Suspirando de alegria por tão sagrado esclarecimento pleno aqui revelado. Alavancou tudo! Deus-mesmo aparecendo….agradeço muitíssimo Regis seu sim único! O verdadeiro ser.

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